PT-BR ES

Canetas de Emagrecimento (GLP-1) e Risco Cardíaco: o que dizem os estudos

Dr. Mauricio B. Kraemer · Médico · CRM-SP 147044 · Presidente SPMD
Publicado em 20 de maio de 2026 · Revisão científica: ensaios clínicos publicados em NEJM, Lancet e JAMA até maio de 2026

Em consultório de cardiologia esportiva, recebo a mesma pergunta toda semana: "essas canetas fazem mal pro coração?". A versão curta da resposta é: não, e a evidência atual aponta o contrário — os principais ensaios clínicos mostram que essas medicações reduzem eventos cardiovasculares maiores em pacientes com indicação. Mas isso não significa que sejam inofensivas, e principalmente não significa que devam ser usadas sem médico. Este artigo é uma leitura honesta do que os estudos mostram — sem hype e sem alarmismo.

O que são essas "canetas"

São injetáveis subcutâneos semanais que atuam em receptores de incretinas — hormônios intestinais que regulam apetite, saciedade, esvaziamento gástrico e glicemia. Três classes interessam à discussão atual:

Eficácia — o que perdem de peso, em quanto tempo

Os números vêm dos ensaios clínicos randomizados controlados por placebo:

Para contextualizar: isso é eficácia comparável à cirurgia bariátrica em vários estudos. Para a cardiologia, essa magnitude de perda de peso traz benefícios sistêmicos importantes — redução de pressão arterial, melhora do perfil lipídico, diminuição de gordura visceral e hepática, melhora da apneia do sono.

O coração — por que o medo não tem base nos estudos

O receio de "infarto causado pela caneta" é o que mais escuto. Os ensaios cardiovasculares mostram o oposto:

SELECT (2023) — mudou o paradigma

O estudo SELECT randomizou 17.604 pacientes obesos sem diabetes, mas com doença cardiovascular estabelecida. Em seguimento médio de quase 40 meses, a Semaglutida 2,4 mg reduziu o desfecho composto MACE (morte cardiovascular, infarto não fatal, AVC não fatal) em 20% (HR 0,80; IC 95% 0,72-0,90)[1]. Foi o primeiro ensaio a mostrar que tratar a obesidade per se com GLP-1 reduz eventos cardiovasculares, mesmo sem diabetes.

SUSTAIN-6 (2016) — já apontava o caminho

Em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, a Semaglutida reduziu MACE em 26% (HR 0,74)[5].

SURPASS-CVOT (2025) — Tirzepatida não-inferior

Tirzepatida foi comparada com Dulaglutida em pacientes com diabetes e doença cardiovascular: não-inferioridade em MACE, sem sinal de risco cardíaco adicional[4].

Meta-análise (Lancet Diabetes Endocrinol 2021)

Sattar et al. agregaram todos os ensaios de GLP-1 RA em diabéticos: redução de 14% no MACE, 13% na mortalidade cardiovascular, 12% na mortalidade total e 11% na hospitalização por insuficiência cardíaca[7].

Retatrutide e segurança CV

Em fase 2, Retatrutide não mostrou desequilíbrio de eventos cardiovasculares adjudicados e melhorou pressão arterial sistólica (-9,7 mmHg) e perfil lipídico[6]. O ensaio cardiovascular dedicado (TRIUMPH-OUTCOMES) ainda está em andamento; até esta publicação não há desfechos pivotais.

A diretriz europeia ESC 2023 recomenda agonistas GLP-1 como classe I para pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular estabelecida — independente do controle glicêmico[9]. Não é uma recomendação que se dá a medicações com risco cardíaco.

Os efeitos colaterais reais — não fingir que não existem

Onde está a verdade incômoda: essas medicações não são isentas de efeitos adversos. Os principais documentados são:

O paciente que pergunta sobre o coração frequentemente esquece de perguntar sobre esses efeitos — e são esses que aparecem na prática.

Quem se beneficia — e quem não

Pelo que a literatura mostra, o paciente típico que se beneficia é:

O paciente que não deveria estar usando:

Por que o acompanhamento é não-negociável

O médico não está ali apenas pra "prescrever a caneta". O acompanhamento existe para:

  1. Indicação correta — diferenciar quem se beneficia de quem usa por moda.
  2. Investigação de causas tratáveis de obesidade — hipotireoidismo, síndrome de Cushing, medicamentos obesogênicos.
  3. Avaliação cardiovascular prévia — não porque o medicamento cause risco, mas porque a obesidade já implica risco cardiovascular, e isso precisa ser estratificado.
  4. Acompanhamento de composição corporal — para garantir que o que está sendo perdido é gordura, não massa magra. Avaliação ISAK seriada resolve.
  5. Monitoramento de efeitos adversos — função renal, função pancreática, vesícula, vitamina D, ferritina.
  6. Decisão de manutenção — quando reduzir dose, quando suspender, como evitar o rebote.

Resumo prático

Quer avaliação completa antes ou durante o tratamento?

Avaliação cardiológica esportiva + composição corporal ISAK + análise metabólica + nutrologia — tudo integrado no MK-CardioSport (Atibaia e Bragança Paulista). Acompanhamento de longo prazo, não consulta pontual.

📅 Agendar avaliação Falar antes pelo WhatsApp

Aviso médico-legal: Este artigo é informação educacional, não consultoria médica individual. Cada paciente é único; decisões sobre uso, suspensão ou troca de medicação devem ser tomadas com seu médico assistente após avaliação clínica direta.

Referências

  1. Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. N Engl J Med. 2023;389(24):2221-2232. doi:10.1056/NEJMoa2307563
  2. Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. N Engl J Med. 2021;384(11):989-1002. doi:10.1056/NEJMoa2032183
  3. Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatide Once Weekly for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2022;387(3):205-216. doi:10.1056/NEJMoa2206038
  4. Nicholls SJ, Pavo I, Bhatt DL, et al. Cardiovascular Outcomes with Tirzepatide versus Dulaglutide in Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2025;393(24):2409-2420. doi:10.1056/NEJMoa2505928
  5. Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Patients with Type 2 Diabetes. N Engl J Med. 2016;375(19):1834-1844. doi:10.1056/NEJMoa1607141
  6. Jastreboff AM, Kaplan LM, Frias JP, et al. Triple-Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. N Engl J Med. 2023;389(6):514-526. doi:10.1056/NEJMoa2301972
  7. Sattar N, Lee MMY, Kristensen SL, et al. Cardiovascular, mortality, and kidney outcomes with GLP-1 receptor agonists in patients with type 2 diabetes: a systematic review and meta-analysis of randomised trials. Lancet Diabetes Endocrinol. 2021;9(10):653-662. doi:10.1016/S2213-8587(21)00203-5
  8. Sodhi M, Rezaeianzadeh R, Kezouh A, Etminan M. Risk of Gastrointestinal Adverse Events Associated With Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonists for Weight Loss. JAMA. 2023;330(18):1795-1797. doi:10.1001/jama.2023.19574
  9. He L, Wang J, Ping F, et al. Association of Glucagon-Like Peptide-1 Receptor Agonist Use With Risk of Gallbladder and Biliary Diseases: A Systematic Review and Meta-analysis of Randomized Clinical Trials. JAMA Intern Med. 2022;182(5):513-519. doi:10.1001/jamainternmed.2022.0338
  10. Marx N, Federici M, Schütt K, et al. 2023 ESC Guidelines for the management of cardiovascular disease in patients with diabetes. Eur Heart J. 2023;44(39):4043-4140. doi:10.1093/eurheartj/ehad192