Suplementos com Evidência A: o que realmente funciona
A indústria de suplementos esportivos mundial vende bilhões por ano em cápsulas, pós e blends. A maioria não tem evidência científica que justifique o custo ou o risco regulatório de contaminação. O Comitê Olímpico Internacional (COI) e o Australian Institute of Sport (AIS) classificam só um pequeno grupo como evidência nível A — suporte de pesquisa de alto nível, com efeito ergogênico mensurável em protocolo específico. Os 5 abaixo são esses, e merecem conhecimento sério antes do consumo.
O que significa "evidência nível A"
O Australian Institute of Sport criou um sistema de classificação em 4 grupos (A, B, C, D) que o resto do mundo adotou[2]. Grupo A significa: suplemento com benefício mensurável em protocolo bem definido, com múltiplos ensaios randomizados, segurança documentada e adequação a uso esportivo competitivo. O COI emitiu consenso oficial em 2018 confirmando os mesmos 5-6 compostos como evidência A — cafeína, creatina, beta-alanina, nitrato dietético e bicarbonato de sódio (citrulina entrou na lista AIS posteriormente)[1].
Importante separar do imaginário: "evidência A" não é "todo mundo deve tomar". É: para o contexto certo (modalidade, duração, intensidade), funciona e é seguro. Fora do contexto, é dinheiro jogado fora.
Creatina monohidratada
O suplemento ergogênico mais estudado da história. Mecanismo: aumenta o estoque muscular de fosfocreatina, o substrato energético que sustenta esforços máximos de até ~10 segundos e recuperação entre séries. Beneficia força máxima, hipertrofia, potência repetida, capacidade anaeróbia. Em meta-análise robusta, Lanhers et al. confirmaram ganho significativo de força em membros superiores em esforços < 3 min[4].
- Dose (ISSN 2017[3]): carga 0,3 g/kg/dia por 5-7 dias, depois manutenção 3-5 g/dia. Ou apenas 3-5 g/dia direto (saturação em ~4 semanas, sem carga necessária).
- Quando: a qualquer hora do dia. Pós-treino com carboidrato pode aumentar captação.
- Forma: monohidratada é a única com evidência robusta. Outras formas comerciais (etil-éster, líquida, "supercreatina") não superam a monohidratada e custam mais.
- Segurança renal: 1-2 g/dia por anos não altera função renal em atletas saudáveis (Poortmans & Francaux[5]; Antonio et al. 2021 desmistifica medos comuns[6]).
- Quem evita: nefropata pré-existente, gestantes (faltam dados). Cardiopatia estrutural normal: sem contraindicação.
- Ganha peso: 1-2 kg de retenção hídrica intramuscular. Não é gordura.
Beta-alanina
Precursor da carnosina muscular, principal tampão intracelular do íon H+ produzido em esforço de alta intensidade. Hill et al. demonstraram, em 2007, que 4 semanas de beta-alanina elevam carnosina muscular e capacidade de ciclismo intenso[7]. Meta-análise de Saunders et al. (Br J Sports Med, 2017) consolidou: benefício consistente em esforços de 0,5 a 10 minutos[8].
- Dose (ISSN 2015[9]): 3,2-6,4 g/dia, fracionada em 4 tomadas para reduzir parestesia.
- Tempo de carga: 4-8 semanas para saturação. Não funciona em 1 semana.
- Modalidades-alvo: remo 2000m, ciclismo contrarrelógio, natação 200m, sprints repetidos, esportes de combate.
- Parestesia: formigamento na pele 15-20 min após a dose. Inofensivo, dose-dependente, some com fracionamento.
Nitrato dietético (suco de beterraba)
Larsen et al. (2007) demonstraram que nitrato dietético reduz o custo de oxigênio do exercício submáximo[10] — mecanismo via via NO → eficiência mitocondrial → mais trabalho com menos O₂. Revisão de Jones et al. detalhou aplicações em endurance de 5-30 minutos[11].
- Dose: 5-9 mmol (~400-800 mg) de nitrato, 2-3 horas antes do esforço.
- Fontes naturais: 70-140 ml de suco concentrado de beterraba, ou 2-3 beterrabas inteiras. Espinafre e rúcula também.
- Cuidado: não usar enxaguante bucal antibacteriano no dia — mata bactérias orais que convertem nitrato em nitrito (etapa essencial). Engolir a saliva no esforço.
- Modalidades-alvo: corrida 5-10 km, ciclismo, triathlon esprintes.
Bicarbonato de sódio
Tampão extracelular que retarda acidose em esforço máximo de 1-7 minutos. Posição ISSN 2021 (Grgic et al.)[12]:
- Dose aguda: 300 mg/kg de peso, 60-180 minutos pré-esforço.
- Protocolo de carga: 0,4 g/kg/dia divididos por 3-5 dias — reduz desconforto gastrointestinal sem perder eficácia.
- Modalidades: natação 100-200m, remo 2000m, ciclismo curto, MMA, boxe.
- Efeitos colaterais: náusea, diarreia, cólica. Tomar com alimento sólido (carboidrato) reduz muito.
- Atenção: alto teor de sódio. Não usar em hipertensão descontrolada, insuficiência cardíaca ou renal sem orientação médica.
Citrulina malato
Pérez-Guisado & Jakeman (2010) testaram 8 g de citrulina malato pré-treino: aumento de 52% no número de repetições no supino e redução de 40% na dor muscular tardia[13]. Mecanismo: ciclo da ureia reciclando amônia + via NO. Evidência ainda menos robusta que os outros 4, mas hoje classificada como Grupo A pela AIS para resistência muscular.
- Dose: 6-8 g, 60 min pré-treino.
- Modalidades-alvo: musculação de alta repetição, treino de resistência muscular.
- Forma: malato (citrulina + ácido málico) é o padrão. Citrulina pura provavelmente equivalente.
O que NÃO está aqui (e por quê)
Glutamina, BCAA, HMB, óxido nítrico em pó "puro", queimadores de gordura, proteína "secreta de fórmula americana", colágeno hidrolisado para performance — todos com evidência D ou C-rebaixada nas listas oficiais. Não significa "não funciona pra ninguém" — significa que não há evidência consistente em ensaios randomizados controlados que justifique investimento financeiro ou risco.
A cafeína (também nível A) ficou de fora desta lista intencionalmente — merece artigo próprio, especialmente pelo contexto de uso em atletas com arritmia ou hipertensão.
Antidoping — todos os 5 estão permitidos
Nenhum dos 5 está na Lista Proibida WADA 2026[14]. O risco real é contaminação cruzada de produtos de fabricantes de baixa qualidade — suplementos podem conter resíduos de esteroides, estimulantes ou hormônios sem que o rótulo declare. Para atleta competitivo: comprar apenas marcas com selo de auditoria independente (Informed Sport ou NSF Certified for Sport).
O elo perdido — avaliação cardiológica antes
Independente do suplemento, a regra geral é: avaliação cardiológica esportiva antes. Hipertensão descontrolada não combina com bicarbonato (sódio alto). Arritmia inexplicada não combina com creatina sem investigação. Atleta em planejamento sério não compra suplemento — incorpora suplementação ao plano que já tem dieta, treino e dado fisiológico medido.
Resumo prático
- 5 com evidência A pelo COI/AIS/ISSN: creatina monohidratada, beta-alanina, nitrato dietético, bicarbonato de sódio, citrulina malato.
- Cada um tem modalidade e duração de esforço onde funciona — fora disso, é desperdício.
- Nenhum deles é proibido pela WADA. Atenção à contaminação cruzada — usar marcas certificadas.
- Antes de qualquer protocolo, fazer avaliação cardiológica e laboratorial básica.
- Suplemento isolado não compensa treino mal feito, sono insuficiente ou nutrição ruim — só refina margem.
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📅 Agendar avaliação integrada Falar pelo WhatsAppAviso médico-legal: Este artigo é informação educacional, não consultoria nutricional individual. Uso de suplementos em pacientes com cardiopatia, nefropatia, hipertensão ou gravidez exige avaliação médica direta.
Referências
- Maughan RJ, Burke LM, Dvorak J, et al. IOC consensus statement: dietary supplements and the high-performance athlete. Br J Sports Med. 2018;52(7):439-455. doi:10.1136/bjsports-2018-099027
- Peeling P, Castell LM, Derave W, et al. Sports Foods and Dietary Supplements for Optimal Function and Performance Enhancement in Track-and-Field Athletes. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2019;29(2):198-209. doi:10.1123/ijsnem.2018-0271
- Kreider RB, Kalman DS, Antonio J, et al. ISSN position stand: safety and efficacy of creatine supplementation. J Int Soc Sports Nutr. 2017;14:18. doi:10.1186/s12970-017-0173-z
- Lanhers C, Pereira B, Naughton G, et al. Creatine Supplementation and Upper Limb Strength Performance: A Systematic Review and Meta-Analysis. Sports Med. 2017;47(1):163-173. doi:10.1007/s40279-016-0571-4
- Poortmans JR, Francaux M. Long-term oral creatine supplementation does not impair renal function in healthy athletes. Med Sci Sports Exerc. 1999;31(8):1108-1110. doi:10.1097/00005768-199908000-00005
- Antonio J, Candow DG, Forbes SC, et al. Common questions and misconceptions about creatine supplementation. J Int Soc Sports Nutr. 2021;18:13. doi:10.1186/s12970-021-00412-w
- Hill CA, Harris RC, Kim HJ, et al. Influence of β-alanine supplementation on skeletal muscle carnosine concentrations and high intensity cycling capacity. Amino Acids. 2007;32(2):225-233. doi:10.1007/s00726-006-0364-4
- Saunders B, Elliott-Sale K, Artioli GG, et al. β-Alanine supplementation to improve exercise capacity and performance: a systematic review and meta-analysis. Br J Sports Med. 2017;51(8):658-669. doi:10.1136/bjsports-2016-096396
- Trexler ET, Smith-Ryan AE, Stout JR, et al. ISSN position stand: Beta-Alanine. J Int Soc Sports Nutr. 2015;12:30. doi:10.1186/s12970-015-0090-y
- Larsen FJ, Weitzberg E, Lundberg JO, Ekblom B. Effects of dietary nitrate on oxygen cost during exercise. Acta Physiol (Oxf). 2007;191(1):59-66. doi:10.1111/j.1748-1716.2007.01713.x
- Jones AM, Thompson C, Wylie LJ, Vanhatalo A. Dietary Nitrate and Physical Performance. Annu Rev Nutr. 2018;38:303-328. doi:10.1146/annurev-nutr-082117-051622
- Grgic J, Pedisic Z, Saunders B, et al. ISSN position stand: sodium bicarbonate and exercise performance. J Int Soc Sports Nutr. 2021;18:61. doi:10.1186/s12970-021-00458-w
- Pérez-Guisado J, Jakeman PM. Citrulline malate enhances athletic anaerobic performance and relieves muscle soreness. J Strength Cond Res. 2010;24(5):1215-1222. doi:10.1519/JSC.0b013e3181cb28e0
- World Anti-Doping Agency. The 2026 Prohibited List — International Standard. Montreal: WADA; 2026. wada-ama.org/2026-prohibited-list