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Tontura ou quase desmaio no treino: quando é o coração?

Dr. Mauricio B. Kraemer · Médico · CRM-SP 147044 · Presidente SPMD
Publicado em 28 de maio de 2026

Sentir tontura, a vista escurecendo ou quase desmaiar durante o exercício assusta — e a primeira coisa que aparece na internet é "deve ser desidratação ou açúcar baixo". Na maioria das vezes é mesmo algo simples e benigno. Mas existe um detalhe que quase nenhum texto explica e que muda completamente a conduta: importa MUITO se o episódio acontece durante o pico do esforço ou depois que você parou. Esse detalhe separa o que é quase sempre inofensivo do que merece avaliação antes de voltar a treinar.

O que quase todo texto diz (e por que é incompleto)

As causas mais comuns de tontura no exercício são, de fato, benignas: desidratação, queda de glicose, hiperventilação (respiração rápida demais) e hipotensão ao parar bruscamente — o sangue "empoça" nas pernas e falta retorno para o cérebro. Tudo isso é verdade e responde pela imensa maioria dos casos. O problema é parar aí: ao tratar todo episódio como "bebe mais água", o conteúdo leigo ignora a fração pequena, porém importante, em que o sintoma vem do coração.

O detalhe que muda tudo: durante ou depois do esforço?

Um estudo clássico avaliou 7.568 atletas jovens (Colivicchi et al., European Heart Journal, 2004)[2]. Dos que relataram desmaio, 86,7% não tinham relação com o esforço, 12% ocorreram após o exercício e apenas 1,3% durante o esforço. E aqui está a chave: os episódios não relacionados ou pós-esforço tinham, quase sempre, as características do desmaio neuromediado — o famoso "vasovagal", benigno. Já o desmaio durante o pico da atividade é o raro, mas é justamente o que pode sinalizar um problema cardíaco.

A diretriz europeia de síncope (Brignole et al., European Heart Journal, 2018)[1] formaliza essa regra prática: síncope que acontece em pleno esforço é "bandeira vermelha" e exige investigação cardiovascular; síncope que acontece logo após terminar, com aviso prévio (calor, náusea, vista escurecendo), costuma ser reflexa e benigna.

🚩 Sinais de alerta — avalie antes de voltar a treinar

Procure avaliação se a tontura ou o desmaio vierem com qualquer um destes:

Se nada disso se aplica — você sentiu o aviso, o episódio foi depois de parar ou fora do treino, e não há história familiar preocupante — a chance de ser algo benigno é alta. Ainda assim, um episódio que te assustou merece pelo menos uma conversa e um eletrocardiograma.

O que pode estar por trás (quando é o coração)

Quando o desmaio de esforço tem origem cardíaca, costuma ser por um destes grupos — todos minoria, mas são exatamente os que não se pode deixar passar: arritmias desencadeadas pelo esforço, cardiomiopatias (como a hipertrófica), anomalias de origem das artérias coronárias e canalopatias (alterações elétricas hereditárias). Não é para entrar em pânico: a maioria absoluta de quem treina nunca terá nada disso. O ponto é que o rastreamento bem feito funciona — o programa italiano de avaliação pré-participação reduziu a morte súbita em atletas jovens em cerca de 89% (Corrado et al., JAMA, 2006)[5].

Como se avalia de verdade

A avaliação não é "um exame mágico", é um raciocínio em etapas:

  1. Conversa dirigida ao esporte — como, quando e em que intensidade aconteceu; se teve aviso; modalidade; e história familiar.
  2. Eletrocardiograma (ECG) lido pelos critérios internacionais para quem pratica exercício (Sharma, Drezner et al., 2018)[4] — que separam a adaptação normal do atleta do que é realmente alteração.
  3. Holter 24h, incluindo um dia de treino real, para flagrar arritmias intermitentes.
  4. Ergoespirometria (teste cardiopulmonar) — o exame que observa o coração sob esforço, reproduzindo a situação em que o sintoma aparece. Veja como funciona.
  5. Ecocardiograma quando há suspeita de causa estrutural.

A diretriz europeia de cardiologia do esporte (Pelliccia et al., 2020)[3] orienta exatamente essa lógica: avaliar com critério, liberar com segurança e evitar tanto o exagero (afastar do esporte sem necessidade) quanto a omissão (ignorar um sinal de alerta).

Resumo prático

Teve tontura ou quase desmaio treinando? Vamos avaliar com segurança.

Avaliação cardiovascular e fisiológica aplicada ao exercício: ECG com critérios internacionais, Holter 24h, ergoespirometria com análise de gases e ecocardiograma quando indicado. Atendimento em Atibaia (SportLabs) e Bragança Paulista (Clínica Vitae).

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Aviso médico-legal: Este artigo é informação educacional, não consultoria médica individual. Diante de desmaio durante o esforço, dor no peito ou palpitação importante, procure avaliação médica diretamente. Os critérios apresentados não substituem avaliação clínica individualizada.

Referências

  1. Brignole M, Moya A, de Lange FJ, et al. 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. Eur Heart J. 2018;39(21):1883-1948. doi:10.1093/eurheartj/ehy037
  2. Colivicchi F, Ammirati F, Santini M. Epidemiology and prognostic implications of syncope in young competing athletes. Eur Heart J. 2004;25(19):1749-1753. PubMed: 15451154
  3. Pelliccia A, Sharma S, Gati S, et al. 2020 ESC Guidelines on sports cardiology and exercise in patients with cardiovascular disease. Eur Heart J. 2021;42(1):17-96. doi:10.1093/eurheartj/ehaa605
  4. Sharma S, Drezner JA, Baggish A, et al. International recommendations for electrocardiographic interpretation in athletes. Eur Heart J. 2018;39(16):1466-1480. doi:10.1093/eurheartj/ehw631
  5. Corrado D, Basso C, Pavei A, et al. Trends in sudden cardiovascular death in young competitive athletes after implementation of a preparticipation screening program. JAMA. 2006;296(13):1593-1601. doi:10.1001/jama.296.13.1593